O lobo e o burro


Pastava em belos campos um formoso jumento; um lobo o viu. E como estava faminto de quinze dias, pensou em devorá-lo; mas o jumento era forte, e ele... Fraquinho... Pois quinze dias de jejum dão cabo do mais valente. Recorreu, pois, à astúcia. Aproximou-se do burro, e ofereceu os seus serviços, dizendo que, como médico que era, estudara botânica, e podia mostrar-lhe das ervas do pasto em que pastava quais as boas, quais as que lhe podiam fazer mal. Ah meu amigo, disse-lhe o burro, ainda bem que chegaste a tempo; não para me resguardares de más plantas, pois também as sei distinguir, mas para aliviar-me de um grave incômodo; há dias minha pata traseira está dolorida; parece que se está formando um tumor. Deve ser um espinho. Poderia dar uma olhada?  E o lobo dirigiu-se para a traseira do burro, para examinar-lhe a pata. O jumento, que não era assim tão burro, levantou a pata e assentou-lhe um formidável coice que lhe quebrou o queixo.

MORALIDADE: Se todos os lobos charlatães encontrassem burros como o desta fábula, não veríamos no mundo o triunfo de tanta impostura.

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